Entre a Cereja e a Bolha
O perigo de confundir o mapa com aquilo que foi mapeado.
Eu mudei tanto assim?
Não me encaixo mais, como uma nota fora do timbre.
A nota não mudou, mas o arranjo se foi.
A composição não está errada ou desorganizada.
Uma nota não deve mudar a música.
Pois a música é a própria intenção, não os acordes. Nem mesmo os sons, pois estes são apenas as vibrações.
Percepções, entretanto.
Intenção, como flecha, aresta.
Linha, horizonte finito.
Porque nossa perspectiva é divinamente cerrada: limites, escolhas, tons.
Delimitação, perfeição.
Por que esse fetiche pelo completo?
O homem é e não é.
Se faz completo por ser vazio, como uma bolha de sabão. Circunferência, membrana, volume.
E o que é a bolha?
É a membrana, ou a dimensão que ela contém?
E ela não contém o infinito?
Da lâmina à bainha.
O masculino e o feminino.
Dança.
A lâmina e a violência,
a bainha e a restrição.
Promessa, compreensão, união.
Não meramente uma ou outra. Mas a soma que sobra das partes.
O espírito é a espada.
Que não deve ser sacada.
Pois ela cortará o presente, o passado, a carne, os espíritos e o próprio espaço.
A ruína do amor e o fim do mundo.
Apenas existe permissão para desembainhá-la para proteger, jamais destruir.
Criação, destruição.
E brandi-la em consciência
seja plena ou fragmentada: perdição.
Deus é o único detentor da destruição, pois mesmo morte e fim não se comparam à redução ao nada, não do pó ao pó.
Mas, mesmo sem a carne, sem os ossos que pesam, sem as nossas amadas carcaças, quando tudo se for, o que sobra?
Quando a água evapora, ou solidifica, ou altera seu estado, ela é destruída?
Simplesmente desaparece?
Minha espada, esqueci onde está guardada já.
Pois muito do trabalho resoluto, está concluso, e pronto para as próximas estações.
Reflexos, decisões, compromissos.
Então, música, por onde anda?
Entre um timbre ou outro, dentre escalas e composições. Agudos e graves.
Onde é que eu posso me colocar?
E, prontamente, a Deus reverenciar. De maneira que onde essa nova melodia despertar,
seja livre para despojar sem perturbar, nem descompensar.
Harmonia,
extensos sinais, frequências e energia, o verdadeiro milagre,
ordem e ritmo.
movimento.
Então, não, eu não mudei tanto assim.
Te pergunto,
Quando uma gota do oceano cai na areia, o oceano vira a areia? Não degenera? Ou apenas existe em espera?
E o que sobra da tensão?
Razões, reações, emoções, distinção, e a disparidade.
Não.
Não sei.
Não quero saber.
Eu, você e as bolhas,
e as respostas estão no que existe entre tudo o que se pode tocar.
O mundo. O próprio universo.
Versos.
Redutos discretos.
Um dia, decerto, quando no Criador me encontrar, há certa expectativa.
Mas é certo que essa experiência, seja lá o que for estar vivo, mesmo que sempre sem se revelar, parece conter tudo que é preciso viver.
Mesmo que os segredos respirem em silêncio completo. E que, quando proferidos, já terão ruído.
Omitidos.
Os mesmos, segredos, enredos,
desfechos e caprichos.
Entre o que se pode saber,
o que se deve entender
e o que é preciso afirmativamente compreender.
Ainda, sim, são todos apenas remendos, só para categorizar essa experiência.
mas e a nossa veemência?
Entre o homem e a técnica.
Tecnologia, métodos e as nossas réplicas.
Espíritos sintéticos, razoavelmente patéticos, condensados em algoritmos.
Seus próprios. Manufaturados ritmos.
Engrenagens e gatilhos.
Expansão, redução, finalmente sedução.
Enganação, humilhação.
Crises e Reprises.
Horrores perpetuados, descaracterizados.
Desfigurados;
De humanos a dados. Retalhos.
Homúnculos.
De fenômenos a coleções, rótulos, projeções.
Assustadoramente, raramente incertas.
Mesmo assim, faço essa prece. Não se entregue.
Mesmo que em desespero. Seja como for.
Mesmo na inescapável dor.
Me ouça por um momento singular, um breve segundo que seja.
Respira, e veja.
A cereja.
Do bolo.
É você, seja quem você for.
E mesmo quando se esconde.
Por que então?
Que, por debaixo de todas essas camadas,
ainda permanece único.