De Fantoches e Bonecos
Alguns fios, algumas hastes.
Um cenário, um enredo.
Figurinos, ensaios, ensejos.
Os bonecos.
Filiados, têm um mesmo desejo.
Como Pinocchio, não se contentam.
E mentir pra si é pior que mentir pra ti.
Estão afirmando estarem preocupados.
Dos dois lados. Nós e eles.
Todos muito ocupados.
Pensamentos que não foram fabricados.
Certamente falta autoria.
Um inventivo mercantilismo.
Retóricas e opiniões. Comprados.
Mas te garanto que juram,
porque acreditam.
No que exatamente?
Porque, aparentemente, nesse jogo,
eu e você somos os fantoches.
As decisões proporcionadas
são sempre controladas.
Conspiradas.
De que adianta eu te dizer?
Entre ver e enxergar,
exige certa cadência e devida respiração.
E parar também é uma ação.
Preciosa.
Que certamente aguça a percepção.
Os bonecos, nem tão diferentes são.
Eles pensam que sim.
Pois é mais confortável assim.
Eu mesmo sou um santo, e quem não é?
Portanto, todas minhas lutas são justas.
Minha percepção, minha ação?
E quais as custas
da sua pretensão?
Radicais, pontos de perspectiva.
Reflexos de uma mesma narrativa.
Ação, oposição.
Reação.
A cortina está sempre aberta
e o show não pode parar.
Tem que continuar.
Que pesar.
Meus fios eu uso pra puxar a mão,
sei que não faz diferença.
Mas essa é a minha diferença.
Um fantoche ainda,
porém reanimado.
Não quero emprestar nenhuma estética,
nem cores.
Não bastam essas bandeiras e esses amores.
E a única caixa à qual pretendo pertencer
é meu caixão.
Fora essa,
qual a razão?
E a beleza da equação é que
homens e bonecos não se diferem tanto assim.
Ambos são a vida,
na morte.
Movimento,
sentimento.
Na morte,
a vida.
Na forma,
nas restrições e normas,
ambos inanimados,
apenas em movimento,
se realizam.
E quando a mão puxa, os bonecos dançam.
E quando o apito toca, o cão reage.
E enquanto o boneco não crer,
o fantoche não tem como saber.
Portanto, há de se ter outras
preocupações, satisfações
e, principalmente,
realizações
que não sejam o resultado.