Conjunto de singulares

Poema
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O prazer continua meu, nesse leva e traz, rapaz.

Observar, sem tanta inerência.

Agarrar esse mundo, abraçá-lo e ter tolerância.

Não abaixar a cabeça.

Aparecer.

Descer do pedestal. Ou do pódio.

Pois já está tudo bem.

Sinta essa brisa.

Ela já não vem do mar.

Ela me acompanha, tremenda cisma, como se não pudesse me ver parado.

As velas estão a toda velocidade, e os navegantes da realidade precisam estar atentos.

Há marinheiros, há afogados, há nadadores e também os atormentados.

Há portos tão estimados, naus atracadas e também aquelas abandonadas.

Mesmo as caprichadas, quando estão fora do mar, são apenas adornos.

Sem retorno.

Ainda assim, esse novo vento me faz alcançar voo sem enjoo.

Nem todo mal, nem todo mar.

Nem todo amar, nem todo sal.

Nem toda dor, nem todo mercúrio.

Nem todo perjúrio, nem todo enxofre.

Essa suposta cronologia organiza pontos e linhas em cosmologia e geografia.

Fascinantemente, o essencial se esvai?

Dentre as infinitas possibilidades, você e eu nascemos nas mesmas estações.

É simplesmente fractal?

Aquilo que chamamos de encontro é inédito ou apenas mais uma regra de repetição?

Divina ação.

Essas voltas e revoltas, a ambiguidade das correntes.

Prendem, sustentam e também carregam.

Então, a força que nos impede de partir seja aquela mesma

que impede que despenquemos,

afundemos.

E aquilo que chamamos de limite é o que nos mantém juntos quando todo o resto se desfaz.

E o que esperar de nossas amálgamas?

Pois os tempos são incertos e trajam uma crueldade velada.

A confusão, mero desígnio.

Repetida. Cirandas.

Anjos e ângulos, mesmo que implorem. Mesmo que muitos chorem.

E mesmo quando em falta total de sentido, quando os corações são retidos, trancafiados em dúvidas e ódio,

mesmo no próprio apocalipse,

existe ainda uma coisa que não desaparece.

Meus caros, o refúgio continua sendo a morada.

É preciso acoplar-se a essa busca.

A mais honrada.

Existe um trabalho que há muito tempo vem sendo postergado, e ele implica todos os aliados.

Mesmo quando a honestidade se apresenta como uma faca na garganta, não será o fim.

Não existe fim.

Medo, sim.

Então confie em mim.

Tudo aquilo que se fez e refez deve abrir espaço, devido, novamente.

Como efeito dominó.

Mesmo sem pedir para existir, existimos.

Não como uma linha isolada.

Somos pontos de um crochê.

Famílias e clãs. Sobreviventes.

Descendentes.

Nossas estimadas espirais.

Interpretações racionais.

Árvores e arranjos para o deleite dos anjos.

Há uma trama que não conseguimos enxergar por sermos ela.

Cada ponto existe nos outros pontos.

Relação.

E cada fio incorpora outros fios.

Lindo, não?

Talvez aquilo que chamamos de indivíduo seja apenas um ponto que, em breve consciência, percebe a trama que o sustenta.

Paradoxo.

Somos iguais, mas não por semelhança ou categoria.

Muito menos por crenças ou ciência.

Somos iguais porque cada um é singular.

Estrelas de diferentes pontas, perpetuando as emoções e os sentimentos,

pois estes são realmente nossos testamentos.

Um conjunto de elementos únicos.

Tudo aquilo que pode ser contido e aquilo que une versos.

Desperto.

Cada pessoa carrega aquilo

que recebeu, que perdeu,

o sustento e a sustentação.

E, ainda assim, estamos aqui.

Incrível, sim.

O homem: vive e morre sem querer.

A vida, o amor e a morte. Sorte.

Cegos aqueles que não querem ver.

O que liga a vida e a morte?

Amor.

E apesar dos apesares, estamos aqui, todos juntos.

Uns diante dos outros. Outros diante de uns.

Afundando. Navegando. Atracando. Partindo.

E outros, quando se permitem,

voando.

Sustentando e sendo sustentados.

Isso deverá ser suficiente.

E o resto é o pano de fundo.