O que passa despercebido

Poem
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Ó chuva que cai, transforma o dia.

As raízes se estendem, abrindo caminho,

escondidas, num processo gradativo.

Da semente ao caule, do arbusto à árvore.

Emaranhado, labirinto,

ponto focal, semente, espírito.

O mistério e o mundo,

a alma, o mito.

As catedrais, as crenças, os ritos.

Os templos e a Igreja, a fé dos pecadores

e os pecados dos santos, o anjo em prantos.

Orgulho, inveja e dor,

propor ganhar o mundo em troca do Amor.

Blasfêmias, maldições, manipulação.

Dos desejos carnais aos atos irreparáveis.

Sacrifícios em busca do artifício,

que irrigam o bom Espírito.

O sangue e a água, os rios e as veias.

A carne e a terra, o mundo e o corpo.

O todo e o espírito.

Os processos e a vida.

Os milagres que vemos

e os que escapam da vista.

Os amores que se entregam

e os que somente oferecem pistas.

Estradas, trilhas

e ruas sem saída.


Se eu pudesse explicar o sentimento

de finalmente ver aquilo que passou despercebido,

de tudo que foi corrido,

desprovido de maturidade e consideração da minha parte;

do que não cuidei com o devido valor,

hoje eu me responsabilizo.

E, de certa forma,

foi através de você que existe em mim

que pude enxergar:

quando tentei te substituir,

era eu quem estava me deformando.

Não precisava ter paciência,

consideração,

nem enfrentar minhas inseguranças.

Foi mais fácil seguir pelo outro caminho.

E, mesmo assim,

é como se eu sentisse suas orações,

seu brilho me dando guarida,

sonhos, intuições

e aquele mesmo calor infinito.

Reconhecimento.

Amor de outras vidas.

Não existem palavras que expressem isso.


Sonhos que ainda guardo no âmago,

daqueles quase incompreensíveis,

que desafiam a lógica,

a cronologia

e o bom senso.

Que desafiam a realidade

ou aquilo que entendemos por realidade.

Eu a vi, em meus sonhos,

cabelos negros como a noite,

correndo e brincando por aqui.


Entre sonhos e realidades,

acertos e erros,

confissões e sermões,

as preces e orações,

as dores e os tormentos,

lamentos, compreensão, razão.

O sujeito, o verbo

e as suposições.

O Amor e a lealdade,

os laços de amizade,

veemência, decência,

reticências.

Tramas que não podem ser desfeitas,

apenas refeitas:

nossas colchas de retalhos.


Entregar, de agora em diante,

a compreensão que puder oferecer.

Anos atrás, quando entreguei minha alma ao Senhor,

pedi que Ele não tivesse piedade da minha alma,

mas que eu pudesse ver a verdade, como João.

Queria aceitar a responsabilidade dos meus atos

sem justificativas.

E minhas preces foram ouvidas.

Mas o coração é egoísta.

E, para me desmascarar,

precisei ver a verdade,

a que nos fazem vestir

as máscaras das quais tanto gostamos.

A minha,

eu decidi aposentar.

Afinal, elas facilitam muito

quando falta verdade.

E agora, olhando para mim,

finalmente posso agir integralmente.

Vou continuar confiando em Deus

e fazendo a minha parte.

E seja o que o destino reservar,

pretendo estar presente.