O que passa despercebido
Ó chuva que cai, transforma o dia.
As raízes se estendem, abrindo caminho,
escondidas, num processo gradativo.
Da semente ao caule, do arbusto à árvore.
Emaranhado, labirinto,
ponto focal, semente, espírito.
O mistério e o mundo,
a alma, o mito.
As catedrais, as crenças, os ritos.
Os templos e a Igreja, a fé dos pecadores
e os pecados dos santos, o anjo em prantos.
Orgulho, inveja e dor,
propor ganhar o mundo em troca do Amor.
Blasfêmias, maldições, manipulação.
Dos desejos carnais aos atos irreparáveis.
Sacrifícios em busca do artifício,
que irrigam o bom Espírito.
O sangue e a água, os rios e as veias.
A carne e a terra, o mundo e o corpo.
O todo e o espírito.
Os processos e a vida.
Os milagres que vemos
e os que escapam da vista.
Os amores que se entregam
e os que somente oferecem pistas.
Estradas, trilhas
e ruas sem saída.
Se eu pudesse explicar o sentimento
de finalmente ver aquilo que passou despercebido,
de tudo que foi corrido,
desprovido de maturidade e consideração da minha parte;
do que não cuidei com o devido valor,
hoje eu me responsabilizo.
E, de certa forma,
foi através de você que existe em mim
que pude enxergar:
quando tentei te substituir,
era eu quem estava me deformando.
Não precisava ter paciência,
consideração,
nem enfrentar minhas inseguranças.
Foi mais fácil seguir pelo outro caminho.
E, mesmo assim,
é como se eu sentisse suas orações,
seu brilho me dando guarida,
sonhos, intuições
e aquele mesmo calor infinito.
Reconhecimento.
Amor de outras vidas.
Não existem palavras que expressem isso.
Sonhos que ainda guardo no âmago,
daqueles quase incompreensíveis,
que desafiam a lógica,
a cronologia
e o bom senso.
Que desafiam a realidade
ou aquilo que entendemos por realidade.
Eu a vi, em meus sonhos,
cabelos negros como a noite,
correndo e brincando por aqui.
Entre sonhos e realidades,
acertos e erros,
confissões e sermões,
as preces e orações,
as dores e os tormentos,
lamentos, compreensão, razão.
O sujeito, o verbo
e as suposições.
O Amor e a lealdade,
os laços de amizade,
veemência, decência,
reticências.
Tramas que não podem ser desfeitas,
apenas refeitas:
nossas colchas de retalhos.
Entregar, de agora em diante,
a compreensão que puder oferecer.
Anos atrás, quando entreguei minha alma ao Senhor,
pedi que Ele não tivesse piedade da minha alma,
mas que eu pudesse ver a verdade, como João.
Queria aceitar a responsabilidade dos meus atos
sem justificativas.
E minhas preces foram ouvidas.
Mas o coração é egoísta.
E, para me desmascarar,
precisei ver a verdade,
a que nos fazem vestir
as máscaras das quais tanto gostamos.
A minha,
eu decidi aposentar.
Afinal, elas facilitam muito
quando falta verdade.
E agora, olhando para mim,
finalmente posso agir integralmente.
Vou continuar confiando em Deus
e fazendo a minha parte.
E seja o que o destino reservar,
pretendo estar presente.